Uma viagem de bicicleta pela França

Ir pra estrada nos faz conhecer o mundo, a gente já sabe. Não só pelos lugares novos para os quais ela nos leva, mas pelas pessoas que ela nos traz. Às vezes, um encontro de algumas horas é suficiente pra nos deixar uma lição, uma ideia, um olhar, uma inspiração, um algo que levaremos pra sempre. E é pra compartilhar algumas das estórias desses personagens que passam ou passaram pelo meu caminho que abro a seção Gente que Inspira.

Já na estreia, trago uma estória pra lá de inspiradora. Se você ainda se sente desconfortável quando pensa em viajar sozinha(o), esse texto pode te dar aquela forcinha que falta. Sabe por quê? Porque além de viajar sozinha, a Denise Giusti, paulistana de 35 anos, resolveu viajar sozinha de bicicletaPois é, tem gente que já está nesse nível de desprendimento! É sobre essa aventura que a viajante do dia conta um pouquinho aqui no Mochila, sol e música. E nos mostra que `gente como a gente` também pode se propor a fazer essas loucuras sanas que sempre nos parecem tão distantes e dignas de personagem em revista de viagem.

Vamos às devidas apresentações. A Denise nasceu e viveu em São Paulo até os 33 anos, quando decidiu deixar o país pra viver em Malta, uma ilha no paradisíaco mar Mediterrâneo. “Me formei em Engenharia de Materiais e trabalhei em uma siderúrgica por 11 anos. Os primeiros anos foram incríveis, aprendi muita coisa e fiz muitos bons amigos. Abracei todas as oportunidades de crescimento que apareceram, fui contratada antes de me formar e tive algumas promoções. Por algum motivo que até hoje não entendo direito, parece tudo aquilo parou de fazer sentido. Olhava o sol pela janela do escritório e me sentia morrendo lá dentro, como se tivesse (e tem) um mundo inteiro lá fora para eu conhecer; e eu ali dentro, presa. Até que, em 2015, finalmente decidi largar tudo e ir morar na Europa”.

Dois anos depois, deixou o emprego na área de Customer Support Department (Atendimento ao Consumidor) em uma empresa de IGaming, em Malta, pra se mudar pra Londres. E nesse intervalo entre uma casa e outra, resolveu pedalar pela França. Assim… só pra passar o tempo (rs). E ninguém melhor do que a própria aventureira pra contar tudo sobre essa viagem. Então, deixo vocês com a Denise.

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A aventureira do dia em seu momento preferido: pedalando.

– De onde veio essa ideia mara de viajar sozinha de bicicleta?
Denise: Ano passado eu estava procurando algo diferente para fazer, um lugar novo ou com alguma atividade diferente. Algo que fosse além de comer, beber vinho e caminhar. Comecei a pesquisar sobre trabalho voluntário e, adivinhe só, custa uma fortuna! Fiquei chocada, mas não parei a busca e seguia lendo blogs, sites de viagens e afins. Até que descobri uma agência de turismo que fazia viagens de bike pela Europa. Quaaase morriiii!! Não fazia ideia que isso existia e sempre amei andar de bike.

Entrei em contato para saber quais eram os passeios guiados porque queria conhecer como era isso e, pelo menos na primeira viagem, queria companhia. No mesmo dia, fechei um tour que fazia a rota entre Praga (República Tcheca) e Dresden (Alemanha). Foi maravilhoso! A agência organizava tudo, desde reserva nos hotéis até transportar as malas e servir frutas e águas durante o percurso. E foi aí que comecei a pensar no desafio que seria fazer um passeio desse sozinha, carregando minhas próprias coisas, encontrando lugares para dormir, etc.

Um tempinho depois, sai novamente da zona de conforto, pedi demissão, devolvi meu apartamento alugado em Malta e fui pedalar pela França. Sem malas, pois nem isso eu podia carregar na bicicleta. Levei só uma sacola que pudesse jogar fora depois e, claro, o cartão de débito.

– Você já tinha o costume de viajar sozinha por aí?
Eu já tinha viajado sozinha antes de me mudar pra Malta, mas muito pouco. Isso mudou depois que sai do Brasil porque na Europa é fácil viajar, mas nem sempre é fácil encontrar companhia – e aí, claro, vou assim mesmo.

– Porque escolheu cruzar a França?
Quando ainda morava em São Paulo já tinha ouvido falar sobre a EuroVelo, uma rede que, dentro de pouco tempo, deve chegar a mais de mais de 70.000 km de ciclovias que se conectam por toda a Europa. Mas, foi em Malta que comecei a ler mais sobre cada uma delas e acabei optando pela França por ser um dos países mais bike friendly do continente. Além disso, a rota que escolhi dizia ser todinha sinalizada (e é mesmo!) e – como não tenho muito senso de localização, nem queria passar o tempo todo olhando o GPS – esse foi um ponto decisivo para mim. E foi muito legal fazer essa aventura ali, porque eu já tinha visitado todos os países à sua volta, mas nunca tinha ido à França.

Como foi a preparação da viagem (bicicleta, pesquisa de informações, físico, alimentação, etc.)?
A primeira coisa que fiz foi um curso de mecânica básica para bicicletas quando fui ao Brasil, em fevereiro desse ano. Mas graças a Deus não precisei colocar nada em prática, imagino que teria sido uma tragédia.. rs!

Depois comecei a ler vários blogs e páginas do Facebook sobre pessoas que davam a volta ao mundo em bicicleta e fui ficando cada vez mais apaixonada, só sonhando quando chegaria o meu dia. Eu não queria simplesmente tirar férias e ir, eu queria pedir demissão e ir. Ter a sensação de que podia viajar pelo tempo que quisesse sem ter que voltar por causa do trabalho. Queria sentir a liberdade.

Um ponto muito importante foi sobre onde dormir. Tudo que eu lia falava sobre acampamento, mas eu não queria acampar. Essa era a única condição pessoal, mas por causa disso a viagem estava ficando inviável, tanto pelos preços dos hotéis como pela falta deles nas menores cidades onde eu precisaria parar. Até que me lembrei do Airbnb e tudo mudou. Calculava a quilometragem e via qual era a cidade mais próxima com lugar disponível para dormir (uma tarefa não tão simples assim) e reservava com pelo menos 4 dias de antecedência.

– Conta um pouquinho sobre a rota que você fez…
A rota escolhida foi a Eurovelo6, saindo de Nantes até Never, totalizando 685km. Percorria por dia uma média de 50/60km, o que dava umas 5 ou 6 horas de passeio pois eu ia parando, comendo, tomando chocolate quente pelo caminho e tirando muitas fotos.

Alguns números:

– 18 dias de viagem

– 2 dias para comprar a bicicleta e seus acessóriosIMG_8130

– 5 dias pedalando

– 2 dias de descanso

– outros 7 dias pedalando

– não sei enumerar quantas cidades conheci

– dormi em 13 cidades

– engoli alguns bichinhos pelo caminho

– só um dia de chuva

– nenhum perrengue real, mas alguns perrengues frutos de uma mente muito criativa nos primeiros dias

– uma visita muito especial – meu namorado foi pedalar comigo no final de semana

– um encontro inesperado – uma amiga Francesa que conheci em Malta mora numa das cidades que eu fui e entrou em contato comigo quando viu, pelo Instagram, que eu estava por ali

– muitos castelos avistadosIMG_8142

– incontáveis bonjour, bon appétit e bon voyage

– e mais um sonho realizado. Amém.

– Teve um trecho preferido?
Amei o trecho que foi de Saint-Florent-le-Vieil até Anger. Chegar em Anger de bicicleta foi incrível, a cidade é lindíssima.

– E o mais difícil?
No primeiro dia fiz 70 km sem saber e os últimos 7km eram subida. A chegada foi tensa, muito cansativa. Eu fazia a programação dos lugares para dormir me baseando pelas distâncias, mas percebi que o GoogleMaps mostrava uma distância muito menor do que a percorrida pela ciclovia, porque passar pelo meio das cidadezinhas aumentava a quilometragem.

– Usou alguma tática pra manter o pique durante as pedaladas (música, pensar sobre a vida, contemplar a paisagem…)?
As minhas pedaladas era bem tranquilas, bem passeio mesmo. Quando eu cansava, parava, comia uma fruta, tirava umas fotos, bebia água. Ouvi música só duas vezes quando o vento estava forte (não gosto do barulho do vento) e um rock n´roll sempre dá uma energia extra, né? Mas, gostava mesmo de pensar na vida e apreciar a paisagem.

– Se tivesse que eleger uma trilha sonora pra essa viagem, qual seria?
Uma música que ouvi por acaso durante um dia de pedal e me marcou por causa de uma das frases foi a ´Quando o sol bater na janela do seu quarto´, do Barão Vermelho. A frase era: ´porque esperar se podemos começar tudo de novo, agora mesmo´!!!

– E você conheceu muita gente?
Infelizmente, não. Dificilmente encontrava alguém que falasse inglês e eu não falo francês. Claro que no dia a dia a gente se vira, faz mimica, ou os franceses falavam um pouquinho de inglês, suficiente pra me ajudar. Mas, alguém que falasse um pouco mais para desenrolar uma conversa, foi difícil.

– O que mais te chamou atenção durante a viagem?
A idade das pessoas que estavam viajando de bicicleta. Todos mais velhos do que eu, nãoIMG_8094 falo mais velho tipo 40/50, falo 60/70 anos. Admirável. Incrível mesmo. Um dia eu estava pedalando numa estradona (pouquíssimas partes eram estradas mas quando era, eram sempre estradas sem movimento) e de repente escuto uma respiração bem alta atrás de mim, me assustei pois não vi ninguém se aproximando. Quando a pessoa passa por mim, era um senhor nos seus 65 anos naquelas bicicletas de corrida, passou por mim numa velocidade que eu nunca mais o vi. E olha que ele não foi o único.

– Tente elencar um ponto alto e um ponto fraco.
Os pontos altos foram os momentos em que eu estava pedalando, era maravilhoso.

Os pontos baixos foram quando eu chegava em alguma cidade onde ia dormir e, por serem muito pequenas, era tudo muito deserto, com lojas e restaurantes fechados. Às vezes, eu só queria chegar e sentar num restaurante bacana, comer algo e tomar um vinho e não encontrava. Tinha que achar um mercado e me virar com algo pra comer.

– Qual o seu balanço final dessa experiência?
Foi uma experiência maravilhosa. A minha ideia era ter feito pelo menos um mês de viagem, mas estava ficando cada vez mais difícil encontrar lugares para dormir com distâncias reais para mim. Não falar a língua deles e chegar em cidades muito pequenas e sem movimento, acabou me fazendo sentir muito sozinha e decidi fazer uma pausa na viagem. Digo uma pausa porque agora é impossível viver sem isso.

– Planeja outra viagem de bicicleta?
Sim, tem a Eurovelo2 e a Eurovelo5 que saem de Londres e como estarei por lá… ahh, e também quero fazer o Caminho de Santiago.

– Alguma dica preciosa pra quem pensa em fazer o mesmo?
Apenas vá.

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* Todas as fotos deste artigo são do arquivo pessoal de Denise Giusti e foram cedidas por ela.

E aí, bateu vontade de pegar a bicicleta e explorar o mundo?

Os comentários serão encaminhados pra aventureira do dia, então se quiser deixar aqui sua opinião, dúvidas ou pedir dicas da rota, fique à vontade pra escrever aqui abaixo que a Denise vai receber. E, se gostou, não esquece de curtir o post 😉

Nos vemos!!

2 comentários em “Uma viagem de bicicleta pela França

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  1. Lindamente corajosa essa pessoinha que tenho o privilégio de conhecer. História mais que inspiradora e digna de abrir a seção “Gente que inspira”. Dê, se deseja companhia para Santiago, conte comigo. Parabéns!!!!

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  2. Parabéns Denise pela coragem, atitude e ousadia de sair da caixinha e se aventurar sozinha de um jeito diferente, e diga-se de passagem, do jeito que eu mais gosto também, de bike! Fiz o caminho de Santiago de bike, posso te passar dicas quando quiser! 😉

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