Mulher sozinha mochila #2: largada no meio da estrada, dormi num banco à beira rio

Na minha descida de Chiang Mai, norte do país, a Koh Chang, uma ilha no Golfo da Tailândia, quase divisa com o Cambodia, decidi fazer uma parada em Ayutthaya, a 70km de Bangkok. Assim, tinha um respiro da estrada e trocava o dia no ônibus por um dia na cidade das ruínas. Diferente do que fiz durante toda a viagem, comprei a passagem em uma agência de turismo ao lado do hostel, já que a estação é afastada do centro e não queria gastar esse tempo de deslocamento/dinheiro no meu último dia na ´capital do norte´. Como minha chegada em Ayutthaya era às 4h da madrugada, me certifiquei de que o local de desembarque seria no centro da cidade. Informação confirmada, passagem comprada.

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Wat Yai Chaimongkhon, um dos meus eleitos em Ayutthaya

Às 18 horas estava embarcando no tuk tuk que me levaria, junto com outros oito viajantes, à “estação rodoviária” de Chiang Mai. E a estranheza da coisa já começou aí. O que deveria ser a estação de ônibus intermunicipais, a qual eu já conhecia muito bem, era um acostamento no meio da estrada. O ônibus estava lá, no escuro, nos esperando com mais dois ou três passageiros já embarcados. Weird! Aquele ônibus gigante vazio, o embarque no acostamento, motoristas do tuk tuk e do ônibus e mais algumas pessoas – que ainda não tenho ideia do que faziam ali – discutindo porque chegamos atrasados… Parecia até cena de filme, mas era só mais uma cena da vida real de um turista na Tailândia mesmo. Mas, enfim, começamos muy bien! Eu só queria entrar naquele ônibus e vazar pro sul em busca de um último refresco no mar.

Sentei logo na segunda fileira, a pedido do motorista, porque desceria primeiro e assim ele me avisaria quando chegássemos a Ayutthaya. Me certifiquei de novo de que desceria no centro e a resposta foi a de sempre: “ok ok”! Até que umas tantas da madrugada, o motorista veio me chamar. Ainda estava acordada porque era impossível dormir no que foi o ônibus mais desconfortável de toda a temporada, mas ainda assim me assustei com a forma grosseira com que ele me chamou. Irritada, estava organizando minhas coisas pra descer quando ele veio me chamar, mais uma vez sem nenhuma educação. Vi que estávamos na rodovia e o MapsMe não me indicava sinais de cidade ao redor. Foi quando perguntei mais uma vez: “Vou desembarcar no centro, certo?”. “Ok ok”! Evoquei o Lombardi, o Silvio Santos, contei até três e pensei: “no passa nada, você já vai descer do busão”.

Eis que, de repente, ele parou no meio da estrada e me mandou descer. Sim, às 4h da manhã, sozinha, na beira da estrada. Não tive chance nem de argumentar nada e vi o ônibus indo embora. Eu ali, com minhas duas mochilas, com sangue nos olhos, mas largada à beira da estrada e tendo a sorte de ver taxistas por perto. Dois minutos pra acalmar os ânimos e consegui mostrar a direção do hostel pro taxista. Chegando ao destino, tudo fechado, todos dormindo. Claro! Eram 4h30 da manhã e, quando fiz a reserva, esqueci completamente de que normalmente os hostels e guesthouses não têm recepção 24h. (É.. acontece!).

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Minha casa, vista do banco na beira do rio

Pra minha sorte, a segurança na Tailândia é uma realidade e é fácil encontrar locais destrancados, então “invadi” o hostel e, morta de sono, só me restava esperar alguém acordar. Foi então que, depois de rondar toda a área externa, escolhi um banco e me deitei ali mesmo, à beira do rio. Quem diria que em algum momento da vida eu dormiria num banco qualquer – que não era na praça, mas era quase – acompanhada dos meus amigos sapos, lagartixas, lagartos e mosquitos…

Mulher sozinha mochila: noites inesquecíveis, hóspedes indesejados

Esperei que o staff chegasse pra deixar minhas mochilas, pedir uma bicicleta, buscar um lugar pra tomar café da manha e seguir com a programação de visitas pelas ruinas que tinha pensado quando decidi fazer esse pit stop. Por volta das 6h alguém acordou. Oba! Era um senhor (parecia o dono), com a toalha amarrada na cintura, que veio checar quem era aquela pessoa dormindo no banco do quintal. Expliquei tudo, lhe contei que minha reserva era pra próxima noite e que sabia que o check in só podia ser feito mais tarde, e pedi uma bicicleta. Não tinha, estavam todas alugadas. Estamos indo bem, produção! Às 7h, já estava na rua, a pé, em busca de um café com ar condicionado, plug pro carregador do celular e wifi pra poder pesquisar o roteiro do dia. Uma hora depois, voltei pro hostel sem café, sem internet, sem bateria, derretendo de calor e muito irritada, desta vez com a cidade, por não ter absolutamente nada – aberto ou fechado, nem indicação de que em algum lugar poderia ter. Naquele calor sufocante, só pensava comigo: mas que ideia de girico foi essa de fazer uma parada aqui? E muito, mas muito irritada, paguei um early check in, tomei um banho e me enfiei no quarto com ar condicionado.

Já tinha decidido que, caso não conseguisse alugar a bicicleta, ficaria naquele quarto o dia todo e daria a Ayutthaya o troféu de furada da temporada. Mas, no fim, apareceu uma bicicleta e resolvi dar uma chance à cidade. Primeira atração a visitar: a estação de mini bus (van). Sim, porque perrengue que é perrengue tem que ser perrengue até o fim! Não queria cair em outra furada, então fui atrás de transporte local e alternativo que me levasse a Koh Chang. Naquele calor desesperador, a cada minuto que passava e a cada vez que a comunicação não rolava, meu mal humor se multiplicava por mil. Até que encontrei alguém que falava inglês suficiente pra explicar que os bilhetes eram vendidos na hora do embarque, ou seja, não tinha venda de bilhetes antecipados. Arrepios! Mas ok, informação dada, busquei um restaurante pra comer e me refrescar, enquanto seguia pensando no (in)sucesso da minha decisão de passar por Ayutthaya.

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O calor era tanto que a entrada que estava há uns 80 metros dessa sombra, parecia do outro lado do mundo. Aqui, as ruínas do Wat Maha That.

Sai do restaurante, contei até três e decidi encarar o calor pra fazer a rota de pelo menos dois lugares que me interessavam. Já eram 16h quando, finalmente, comecei as visitas.  Ayutthaya, como já disse, é uma cidade de templos em ruínas e Patrimônio Histórico da Unesco. Foi a capital da Tailândia por mais de 400 anos, até que o birmanos invadiram a cidade e destruíram tudo. Você vê os restos dessa guerra e dos templos por toda a cidade. No meu pequeno passeio de bicicleta, deu pra reparar que alguns ficaram mais conservados, outros poucos praticamente intactos. E no final do dia, já estava eu embriagada de emoção, agradecendo a mim mesma e ao Universo pela brilhante ideia de ter parado ali por um dia! É, um pouco bipolar, mas conto todos os porquês num próximo post! 🙂 Nos vemos!

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Comecei o dia num pesadelo, mas terminei assim.. Suada, exausta e muito grata!

Um comentário em “Mulher sozinha mochila #2: largada no meio da estrada, dormi num banco à beira rio

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  1. Depois das tempestades o bom é que deu para sentir que só acrescentou motivos para ir cada vez mais longe em buscas de novas emoções. Inacreditável imaginar tu passando por isso, quanta coragem !!!! Rsrs

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