762 curvas até Pai

A estrada que liga Chiang Mai a Pai, duas cidades no norte da Tailândia, é, por si só, uma das experiências mais incríveis pra quem está por aqui. E não só pela aventura (…para uns, náusea para outros) de sobreviver às 762 curvas concentradas em um trecho da sua extensão total de cerca de 150 km. Mas, porque a vista… Ah, a vista!

E, sem planejar nem fazer ideia do que me esperava (ainda bem e conto porquê), acabei saindo pra uma road trip que começava por aí. Eu, a Sara – uma italiana que conheci umas semanas antes em outra parte da Tailândia, e o Nikki, de Hong Kong, com a missão de encontrar cachoeiras e os cantinhos mais autênticos do caminho. Antes de pegar a estrada, já sabia que o primeiro trajeto durava entre 3h e 3h30. Mas, não são só 147 km? – me perguntava achando que estava perdendo alguma informação no inglês (yeah, the book is on the table!).

mapa 1095
O trajeto (GoogleMaps)

Pra você não ficar perdido como eu, aqui vai um contexto geral – sugiro esquecer o pai e a mãe e focar na geografia. A rota entre Chiang Mai, capital do estado de mesmo nome e conhecida como capital cultural do norte, e a cidade de Pai, no estado de Mae Hong Son (olha o foco!), é apenas um trecho da belíssima Route 1095. Essa estrada é tão famosa que tem tudo quanto é tipo de souvenir com sua logo, de camisetas a imãs de geladeira, passando por cartões postais. O que faz a fama da primeira parte – Chiang Mai a Pai – são as tais 762 curvas. Já a segunda parte, de Pai a Mae Hong Son (outra cidade com mesmo nome do estado), é a beleza que põe a mesa… opa, que faz a fama. Mas, a verdade é que ela é linda do começo ao fim!

Agora que você já se localizou um pouco, voltamos ao que interessa. Saimos de Chiang Mai de manhã bem cedo pra aproveitar todo o trajeto, parando sempre que tivéssemos vontade. E paramos muitas vezes! Tem cachoeiras (algumas secas, oops!), autênticos restaurantes locais, templos e muitos, mas muitos view points no caminho, devidamente indicados com a sinalização “scenic view” – ou ´vista maravilhosa´, na minha tradução livre. Lindo!

Até que começaram as curvas. Não contei isso pro piloto (no caso, ´pilota´), mas aquela era a primeira vez que eu ficava tanto tempo em cima de uma moto (scooter), o que dá uma ideia da minha (falta de) habilidade em me equilibrar na garupa. Imagina, então, estar naquele zigue-zague que parecia infinito, subindo e descendo montanhas, com curvas às vezes tão fechadas que têm placas de sinalização que pedem pro motorista buzinar – e, assim, avisar a quem vem na outra direção que tem gente por ali (tenso!). Eu ali, dividida entre observar a paisagem, querer registrar tudo e tentando convencer a mim mesma que podia desgrudar pelo menos uma das duas mãos do apoio que fica embaixo do banco. Como está aí? Tudo bem? – ela perguntava de vez em quando. Aqui tudo ótimo, e você continua olhando pra frente por favor!

Mas, com toda aquela beleza e a estrada só pra nós, não demorou pra me render e pegar a câmera. O cenário todo parece um quadro, uma paisagem que mistura o que resta de verde com o vermelho e marrom alaranjado que predomina na seca. Juro, foi uma experiência quase poética!

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Só pra você entender o que eu estou falando

E mais do que a beleza pros olhos, tem as sensações físicas que você sente durante a viagem – e não estou falando do desconforto no banco da scooter. Na temporada seca, muitos agricultores, erroneamente, aproveitam pra provocar queimadas em suas terras ou nos arredores. Resulta que, em alguns trechos, a temperatura que já estava no nível ´quente pra chuchu´, passava a ´que calor do inferno´. A sensação era de estar dentro da fogueira. Um bafo tão quente e tão forte, vindo de baixo (calma!), que chegou um momento em que paramos no acostamento pra nos certificar que não era o motor fundindo por conta das subidas íngremes. Não era.

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Mas, também teve ´refresco´na viagem. Estávamos, os três, em um estado quase meditativo, contemplando profundamente aquela paisagem tão diferente do que estamos acostumados a ver. E, de vez em quando, sentíamos uns respingos vindos do céu. Olhávamos pra cima – quase sincronizados, mas sem falar nada a respeito -, e aquele céu limpo, porém branco, como é característico daqui nessa época. Depois da terceira ou quarta vez, perguntei pra Sara: você sentiu essa chuvinha também ou estou delirando de calor? Sim, ela tinha sentido. Só mais tarde, depois de muito nos refrescar, é que nos demos conta que era um saludo das cigarras. Isso mesmo, uma saudação em forma líquida e, no caso, conhecida também como xixi – olha o nível de intimidade com a fauna tailandesa!

Sobrevivemos. Ao xixi e às curvas. E, sem querer, chegamos a tempo de ver o pôr do sol mais famoso de Pai: desde o Kong Lan Canyon. Um espetáculo da natureza visto de outro espetáculo da natureza que são essas formações de terra com passarelas, às vezes, tão estreitas que dá vertigem olhar pra baixo. E, pra apimentar um pouco, nenhum lugar pra se segurar e bastante escorregadio. Foi uma das paisagens mais perturbadoras, instigantes e exóticas que já vi na vida!

O que recomendo pra quem quer fazer essa viagem

Fiz esse trecho três vezes, uma de passageira na scooter e duas em uma van. Minha

pai road
Tem até zona pra aliviar o enjoo

sugestão? Esquece a van – mas ignore essa recomendação se você tem pouca experiência em pilotar. A Quatro Rodas que me desculpe, mas essa estrada foi feita pra viajar de moto! De dentro da van (ou do carro) você não desfruta do espetáculo e a chance de “virar estatística” (e passar mal na viagem) é grande.

Mas, tudo tem um porém e aqui são vários. Primeiro, aluga uma moto de verdade. Só quando cheguei a Pai e vi aquele desfile da “Unidos da Enfermaria” – é muita gente enfaixada ou com curativos -, é que me dei conta de que a coisa pode ser séria e descobri que não é recomendável fazer essa viagem em uma scooter. E bastou lembrar das subidas – eu quase sugeria descer da moto pra ver se ela andava – pra entender o porquê. Segundo, e pelo mesmo motivo, também não se recomenda ir em dupla na mesma moto.

Eu fui de dupla em uma scooter (parabéns!). Mas, como só soube de tudo isso quando já estava lá, entrou o fator “o que os olhos não veem o coração não sente”. E aí, já sã e salva, me deliciei com mais um pad thai, desta vez na walking street da cidade conhecida como ´a vila hippie da Tailândia´. Há controvérsias! E prometo falar sobre isso em um próximo post.

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