Monk Chat: bate-papo com um monge em Chiang Mai

Se tem algo que a gente não cansa de ver aqui na Tailândia, são os templos. E quanto mais ao norte você está, mais você os encontra. Na estrada, nas cidades, nos vilarejos, em trilhas escondidas, em todo canto. São mais de 4 mil templos no país em que 95% da população se declara budista.

Mesmo assim, confesso que entrei em muito poucos nessa minha estada na terra do sorriso – e do budismo. Em parte porque são tantos que você acaba deixando pra próxima cidade; também porque, como simples visitante, depois do segundo vem aquela sensação de “mais do mesmo”, como os castelos na Europa; e, por fim, assim como as igrejas na Itália, apesar de serem pontos turísticos importantes, os templos são lugares de culto e aí entra o quesito religião.

Ok, mas não dá pra passar pela Tailândia sem ter estado em um templo, né? É! Mas, eu queria uma experiência um pouco mais completa do que simplesmente visitar e ver de perto a arquitetura e os budas gigantes. Queria conhecer como funciona, o que significa tudo aquilo que a gente vê, como vivem os monges. Então, comecei a buscar na internet e a conversar com outros viajantes.

Descobri algumas coisas interessantes, como, por exemplo, que você pode dormir (de graça) em alguns templos; você, porque eu não! Normalmente, é só para homens – tá vendo a religião aqui?!. Ou fazer aqueles retiros budistas que te permitem passar dias vivendo como e com os monges e meditando, meditando, meditando – esses são pagos e aí, claro, mulheres também são bem-vindas… De qualquer forma, não me interessava nem a primeira, nem a segunda. Ambas eram (e ainda são) muito hardcore pro meu nível de simpatia pela filosofia budista e de desprendimento ou desapego dos “caprichos” de dormir sozinha em um lugar razoavelmente normal. Foi aí que encontrei, no Mundo Plot, a alternativa de ter uma conversa mais intimista com os monges, dentro de um templo, seguida de meditação.

O texto completo da Manu Pontual está aqui: Uma experiência incrível em Chiang Mai: Monk Chat e meditação.    

O Templo de Prata – Wat Srisuphan

watsrisuphan.jpg

Já estava em Chiang Mai quando decidi participar dessa charla com o monge e, por coincidência, o templo estava bem perto da minha guesthouse. O Wat Srisuphan, ou Templo de Prata (Silver Temple), está na zona sul da cidade, logo depois do canal que delimita todo o centro. Ou seja, muito fácil chegar ali a pé. Pra se ter uma ideia da distância, desde o lado oposto do canal são cerca de 30 minutos de caminhada. Considerando que você vai cruzar todo o centro e passar por zilhões de outros templos (e outras distrações mais terráqueas), sugiro uma tarde toda reservada pra esse passeio. Ou vai de tuk tuk, moto ou bicicleta e chega rapidinho. Ele está no fim de uma ruazinha estreita e cheia de lojas de… advinha? Artigos banhados a prata (rs!).

Logo no portão de entrada do templo, está a placa indicando informações sobre o Monk Chat & Meditation. Super fácil! Aliás, foi isso que me assegurou de que estava no lugar certo, já que, por onde entramos, é tudo dourado e avermelhado… Mas, não é de prata, gente? Sim, também. O templo principal é o famoso prateado e é muito bonito! Tem até aqueles que o consideram um dos mais bonitos da Tailândia. A riqueza de detalhes da parte exterior é mesmo de impressionar e, na parte interior… bem, na parte interior é proibida a entrada de mulheres! (yeap, religião again…).

Este slideshow necessita de JavaScript.

A conversa

No início, éramos um grupo de quatro pessoas – Brasil, Estados Unidos e Austrália. Logo depois, mãe e filha francesas se juntaram a nós e, durante as duas horas e meia de conversa (mais propriamente, um monólogo), não parou de entrar gente, até que terminamos em 10, pacientemente (uns nem tanto), escutando o simpático monge praticar o seu inglês. E essa é a ideia do bate-papo, uma espécie de Language Exchange pros monges, ou seja, um tempo pra eles praticarem o inglês enquanto conversam com gente do mundo todo (e dão uma pequena aula sobre a filosofia budista).

Já sabia que a atividade era paga, então não me surpreendeu quando ele nos comentou sobre a pequena “doação” de 150 thb (cerca de € 4,05; ou R$ 13,70) – a alguns dos que estavam ali, sim. É mais do que se cobra pra entrar na maioria dos templos, mas esse valor não compromete a viagem de ninguém, não é? Principalmente, se levar em conta a experiência de ter um contato tão próximo com um monge e, no final, ainda meditar com ele.

Quem nos recebeu foi o tailandês Ajahn Suthep. Ele começou a conversa contando um pouco sobre quem era, como decidiu se dedicar ao budismo (antes de monge, ele foi revolucionário e lutou por quatro anos na guerra) e, rapidamente, entrou na questão dos fundamentos budistas. Já no início deixou todo mundo de boca aberta quando disse que tinha mais de 60 anos (jurávamos que não chegava aos 50) e que tem vários vídeos no Youtube! É… tá pensando que é só a Igreja Católica que se moderniza?! No, no, no!

Os vídeos do monge Ajahn Suthep estão publicados no canal Dharma Records, todos em inglês. 

De toda a aula sobre os princípios do budismo, o que mais me chamou a atenção foi sobre o significado de Duhkka e como nós, ocidentais, o interpretamos errado. Ele disse que as pessoas do western world (nozes), dão a essa palavra, de origem sânscrita, o sentido de sofrimento. Mas, explicou:

– O verdadeiro significado de Dukkha é: instabilidade. Ele (esse conceito) nos ensina que tudo é instável, perene, como a própria condição de vida. Enfim, tudo muda o tempo todo no mundo (sábio Lulu Santos). E o sofrimento vem da não-aceitação dessa verdade. Ou seja, quando sabemos da condição transitória das coisas-pessoas-situações-sentimentos, vivemos em paz, porque entendemos a mutabilidade como natural. É quando nos apegamos a elas e achamos que têm que durar pra sempre (de novo, coisas-pessoas-situações-sentimentos), exatamente como são, que o bicho pega e vem o sofrimento.

Nesse momento da conversa, alguém perguntou: – mas, você não se vê como um monge até o fim da sua vida? E ele respondeu: hoje sou um monge e me dedico a essa que é a minha escolha no momento. Amanhã, eu já não sei o que terei vontade de fazer. (Que conforto ouvir isso, concorda?)

Ele também comentou sobre outros conceitos fundamentais do budismo, alguns que já conhecidos, outros nem tanto. Mas, sem dúvida, o mais legal foi ouvir tudo aquilo de alguém que pratica toda essa filosofia no seu dia a dia, que fala manso, sorridente, ali na sua simplicidade, seu traje laranja, tentando transmitir em outra língua ensinamentos tão profundos.

E, pra finalizar, uma horinha de meditação com um mestre de verdade. Ele nos apresentou a técnica de meditação Kinhin, na qual você medita caminhando, prestando atenção no passo a passo, corpo e mente totalmente presentes. Foi renovador!

Recomendo muito essa experiência pra quem passar por Chiang Mai. Aliás, já que é nada é para sempre, aproveita pra, na saída, comer um delicioso pad thai por (30 thb!!!) no mercado noturno que você vai ver no canal quando terminar de meditar. E uma Chang gelada também, por favor!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Site hospedado por WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: