Mulher sozinha mochila: noites inesquecíveis, hóspedes indesejados

Tem muita mulher viajando sozinha pelo mundo todo, isso é fato. E aqui no Sudeste Asiático somos muitas! Cruzei com mais mulheres acompanhadas só por suas mochilas do que homens – curioso, esses normalmente já nos seus 50 em diante. E, não é à toa. Entre Malásia e Tailândia, não houve um momento sequer em que me senti insegura em relação a assalto, violência ou qualquer coisa do gênero. Ao contrário, por essas bandas, são todos gentis, respeitadores e amáveis. Ou seja, uma maravilha!

But, superado o quesito segurança pessoal, o dia a dia na estrada (sempre) traz desafios esperados e inesperados. E lembram que, mesmo corajosa o suficiente pra se enfiar sozinha em lugares que ´malema´ falam sua língua, temos, sim, nosso lado frágil! E quando você embarca em uma viagem onde a meta é achar lugares cada vez menos turísticos e massificados, as coisas são ainda mais extremas.

Por exemplo, depois de algumas semanas já rodando pela Tailândia, cheguei na última praia que iria antes de subir ao norte. Escolhi uma ilha quase na divisa com Mianmar (Birmânia), banhada pelo incrível mar Andaman. Aqui também se vive do turismo, mas a quantidade de gente não se compara aos main points do país, e o tipo de viajante que vem pra cá também difere um pouco. Quem escolhe Koh Phayam, normalmente, quer sossego, praias vazias e comida local. E foi isso que encontrei, um paraíso, rústico, luz elétrica à base de gerador, pequeno e com várias praias vazias pra curtir dias de livro e relax.

Porém, todo esse isolamento tem um preço. As noites em que o medo era ter uma barata na minha cama pareceram fichinha depois que eu vi, já na primeira noite, pela sombra da luz que vinha de fora, um sapo entrando no meu bangalô. Staff já dormindo, tudo escuro, sem vizinhos no bangalô do lado, eu ilhada dentro do mosquiteiro com medo até de acender a luz do celular e dar de cara com o sapo. Muita concentração e uma bad trip a la Medo e Delírio em Las Vegas depois, consegui dormir.

Quando acordei, abri os olhos e dei de cara com as patas do sapo, que estava por fora do mosquiteiro, mas exatamente na direção da minha cabeça. “Ah vá, um sapinho de nada não assusta tanto assim”, você pode pensar. Arram! Sapo na cabana dos outros é refresco! Mais alguns momentos de paralisação até que ele se movesse e só então consegui sair da cama (e do bangalô) correndo pra pedir ajuda pro tailandês da recepção – que, claro, foi rindo ver se o sapo ainda tava lá ou se tinha virado príncipe. Nenhum dos dois, ele já tinha cumprido sua missão de me aterrorizar e foi embora tranquilo buscar a próxima vítima (!).

Troquei de bangalô, como já era previsto, e busquei um de frente pro mar (e, lógico: que parecesse ´mais seguro´). Tive um dia delícia e agradecia pela chance de estar num lugar tão incrível como aquele. Hora de dormir e desfrutar da tranquilidade da minha nova cabana. Né? Não! Chego no bangalô e vejo um lagarto preparando-se pra entrar no meu ninho. Não era uma lagartixa, minha gente, era um senhor lagarto! De novo, staff dormindo (claro!), tudo escuro, não tinha mais o que fazer senão me refugiar dentro da minha micro ilha particular naquela ilha – o mosquitero.

De novo, mais concentração, meditação, respiração, muitos carneiros e todas as técnicas pra dormir o mais rápido possível. Dormi. No meio da noite, dei um pulo na cama quando escutei o lagarto cantando (gritando) dentro do meu quarto! Não sei a distancia exata que estava de mim, mas parecia que estava quase dentro do meu ouvido. Mais pânico, mas segui ali no escuro, tentando dormir de novo, repetindo o mantra “ele só está de passagem, ele não vai te atacar” (Lembra do ´compre batom´? Então, foi mais ou menos isso). Até que peguei no sono.

No dia seguinte, comentei com uma outra hóspede que também estava lá sozinha e, muito calma, a resposta dela foi: “a única coisa que faço todas as noites é levantar o travesseiro pra ver se tem alguma cobra escondida; de resto, nunca tive problema”. Ah, claro! Cobras! Ainda não tinha pensado nisso, valeu! Mas, no fim ela deu uma dica muito importante: “bebe, toma umas cervejas antes de dormir e assim você não vai ver nada”. Eu, que estava em dias de desintoxição, anotei o recado.

Pastilhas milagrosas
Depois da conversa tranquilizadora, contei pro staff sobre meu visitante e eles providenciaram umas pastilhas pra espalhar pelas arestas do bangalô (que sempre são muitas! Não sei porquê…). À noite, chovia forte e debaixo de muita água fomos lá colocar as tais pastilhas milagrosas e pegamos o lagarto no pulo do gato! O funcionário do ´resort´ não sabia muito o que fazer e queria colocar um papel com fogo aceso no orifício que o lagarto tinha se escondido. (Dios! O teto do bangalô era todo de palha e ele ia incendiar tudo!) Ele não falava inglês e eu não falo Thai, mesmo assim consegui convencê-lo de que aquilo era uma péssima ideia… Então, ele bloqueou a saída do lagarto com muito papelão, espalhou as pastilhas venenosas e voltamos pro lounge.

Com a chuva torrencial, os poucos hóspedes do local estavam ilhados na área comum. Sorte a minha porque assim o restaurante do hotel ficou aberto até mais tarde (entenda 22h!) e pude pôr em prática a dica valiosa da inglesa que conheci pela manhã. Bebi, comi, bebi mais um pouco, me plantei naquela mesa até me expulsarem de lá e, quando não teve mais jeito, fui dormir. Meditação, concentração e finalmente uma noite sem ataques, só escutava o lagarto de longe, fora do bangalô.

Nas noites seguintes, seguia escutando o ´canto do lagarto´ e ficava atenta pra sentir se estava se aproximando ou não. Depois de algumas noites, já estava quase ´mestre em identificação e análise noturna-comportamental da fauna tailandesa´. Mas, quer saber?! Era só amanhecer e abrir a porta do bangalô pra esquecer todo o terror que foram as minhas noites ali. Um mar delicioso, a uns poucos passos da minha cama, e um pôr do sol que fazia todo mundo parar o que estava fazendo e contemplar… horas… até anoitecer de vez! Foi uma semana incrível, de muita paz, com pitadas de terror… E mais uma daquelas coisas que uma mochileira sozinha tem que encarar. É ou não é?

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Koh Phayam/Tailândia. Na foto, o dono do resort e seu cachorro. Ele costumava meditar do começo do espetáculo até escurecer completamente… De chorar!

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