Lições de um primeiro mochilão na Tailândia

Quem costuma mochilar já conhece algumas das regras básicas desse tipo de viagem, como ser econômica na bagagem e deixar em casa as exigências mais severas de conforto e, às vezes, de limpeza. Quando você embarca num mochilão sozinha, também já sabe que vai alternar entre momentos de interação com outros viajantes e de isolamento; vai se acostumar a dividir experiências incríveis com pessoas que conheceu dois dias atrás, com a mesma intimidade que tem com seus amigos de anos; e tem consciência de que, na hora do aperto, vai ter que (torcer pra) contar com um recém-conhecido que esteja disposto a te ajudar naquele momento. Normal!

O que diferencia um pouco uma aventura pela Tailândia, ainda mais sozinha – e especialmente mulher, são as condições extremas que você vai encontrar por aqui. Tudo é muito! Muito calor; muita beleza; muita pobreza e, consequentemente, estrutura muito escassa; muita simpatia, mas muita dificuldade em se comunicar com os locais (calma, que no fim dá sempre certo!); muito turístico ou muito isolado; muito barato; muito mosquito e muita formiga; aliás, muitos bichos; muito raro encontrar um bom chuveiro; cama, em geral, muita dura; e por aí vai…

No outro extremo, tem a Tailândia ocidentalizada, pra gringo ver. Pra ser sincera, essa Tailândia me deixou um pouco triste… É um pecado ver um povo se transformando tanto pra se adaptar a uma cultura que não é sua (mesmo que a história do mundo seja basicamente isso) . Afinal, viemos à Tailândia pra ver a Tailândia, né não? Bom, nem sempre. Mas, se você for como eu, vai querer fugir dessa Tailândia Starbucks e optar por conviver com todos os muitos que disse acima – e tem outros mais -, porque não é à toa que aqui é a terra do sorriso. É de verdade um paraíso natural, com uma cultura única e um povo encantador. E, ainda, muito barato!

20170327_094708A_snap
A beleza é tanta que você sempre acha que está no lugar mais bonito que já viu, até chegar ao próximo destino. Na foto, Pileh Lagoon, em Phi Phi Islands.

Ok, decidida a buscar a Tailândia roots e depois de 30 dias de estrada, compartilho algumas primeiras lições.

1. A primeira dica vale pra qualquer mochilão, mas só conheci aqui no Sudeste Asiático: esqueça GoogleMaps e Booking e baixe os aplicativos MapsMe e Agoda. O primeiro não precisa explicar pra que serve porque o nome já ajuda, mas vale dizer que é demais! Um detalhe é que tem que fazer o download dos mapas pra ter acesso às informações, então faça antes de chegar ao destino ou, melhor ainda, antes de começar sua viagem. O Agoda é um aplicativo de reserva de hospedagens (hotéis, hostels, guesthouses, resorts) e é o mais usado por aqui, especialmente nos lugares menos turísticos.

2. Mais uma que vale também pra outros destinos tropicais. Me vejo em um nível básico de vaidade e cuidados pessoais. Mas, na programação das viagens mais longas, sempre tem aquela recomendação de doble dose de shampoo, máscara, leave in, protetor solar pro corpo, pro rosto, pro cabelo, cremes (de novo) corpo-rosto-cabelo (e pé)… Afinal, a gente não sabe o que eles usam por aqui, né?! Forget it!! Fora o peso, os cremes não aguentam tanto tempo de calor extremo e você pode ter várias surpresas desagradáveis cada vez que abrir a mochila. Se o seu shampoo acabar, vai na 7 Eleven (rede de conveniências) mais próxima e você vai achar marcas conhecidas, se isso te alivia… Ou compre uma versão local com óleo de coco e aprende que não tem kerastase que vai te ajudar por aqui, mon amour! Vai ter que rolar um intensivão nos tratamentos de cabelo/pele quando voltar, sí o sí. Então, deixa essa preocupação pra quando chegar em casa e aproveita pra aliviar um baita peso da sua mochila (eu ainda comemoro cada vez que acaba o pote 2 de alguma coisa). A única coisa que vale a pena trazer em dobro é o cartão do banco pro caso de perda ou esquecimento – e eu não trouxe (sic!).

3. Menos é mais, mas no caso da mochila pra Tailândia o lema é: menos é ainda menos, muito menos! Fiquei orgulhosa quando terminei de separar as roupas pra minha viagem, mas já sei que trouxe muito mais do que preciso e do que é humanamente possível usar aqui – seja pelo calor ou pelo conforto. Então, quando estiver montando sua mochila, pense naqueles dias com o ponteiro nos 40 graus e lembre-se do que usou. Pelo menos em março e abril (período que estou aqui), é esse o calor que te espera. Claro que um casaquinho (veja bem, UM), é sempre bom trazer – no norte você até pode usar a noite; também em alguns hostels onde o ar condicionado chega a congelar…

4. Quando pensar em roteiros menos explorados, ilhas ainda não massificadas, cidadezinhas sem zilhões de turistas, leve em consideração que a estrutura básica será compatível com o isolamento que você busca. Isso significa, por exemplo, luz elétrica a base de gerador, o que, por sua vez, significa que não é permitido usar secador ou qualquer aparelho elétrico do gênero (yeap!). Resultado: trouxe um secador pequeno de viagem que usei uma semana na Malásia e nunca mais; e a máquina de depilação segue intocada, ocupando espaço na mochila – me rendi à lâmina de depilar e na volta pra casa resolvo a herança cutânea que levarei da Tailândia (rs).

5. Quanto mais perto da natureza ou mais longe dos grandes centros urbanos, mais você vai ficar familiarizada com alguns itens, como o mosquiteiro. Tem gente que dispensa a rede de proteção, passa um repelente antes de dormir e acha que tá tudo bem. Mas, confia em mim: mosquiteiro aqui serve pra coisas muito mais importantes do que evitar que os mosquitos te ataquem durante a noite – coisa que, by the way, em geral, eles não evitam. O mosquiteiro te protege dos sapos, cobras, lagartos, aranhas e todos os tipos de répteis e big insetos que você pode imaginar e os que nem passam pela sua cabeça (yeah!). Portanto, quando tiver um mosquiteiro acima da sua cama, saiba que a probabilidade de visitas mais exóticas na calada da noite é bem grande. Minha sugestão: assim que chegar no seu bangalô/quarto/dormitório/cabana, monte o mosquiteiro e o deixe bem preso embaixo do colchão (sim, sem nenhuma abertura!). Aliás, no tema fauna, prepare-se pra fortes emoções. Conto mais sobre isso no post:

Mulher sozinha mochila: noites inesquecíveis, hóspedes indesejados

6. Tem muita coisa legal que você só consegue fazer se estiver em dupla, como kayak (as águas do mar Andaman são calmas e perfeitas pra kayak ou stand up paddle), desbravar algumas trilhas mais selvagens, ir a nado até a ilha mais próxima, ou até uma road trip (de scooter) por vilarejos desconhecidos. Fiz todas essas com gente que fui conhecendo no caminho. Então, se estiver a fim de se aventurar, não tenha vergonha de sugerir uma parceria. Aliás, no caso das viajantes, é bem provável que elas estejam na mesma busca.

20150101_000916A
Tour em Phi Phi Islands com dois casais brasileiros. Cada um viajando por si. Nos juntamos, pagamos um barco só pra nós e fugimos da multidão.

7. Até final de abril/começo de maio, é possível se locomover facilmente pra qualquer lugar do país. Todos os meios de transporte funcionam perfeitamente, nas ilhas e no continente. Porém, saiba que se locomover aqui significa pegar tuk tuk, moto taxi, barquinho, barcão, van (que eles chamam de minibus), trem, ônibus, avião. Em alguns casos, ir de um lugar a outro exige usar todas as opções acima. É importante ter isso em mente por dois motivos: tempo e peso (calma, tô falando da bagagem rs). Se está indo ou saindo das ilhas, acrescente o ingrediente água. Ou seja, vá de chinelo, guarde seu tênis no fundo da mochila, lacre com a capa à prova d´água e, nas ilhas menores, prepare-se pra desembarcar no mar. E não tô falando da areia da praia, não; é no mar mesmo, com água até os joelhos e as ondas (pequenas, pra nossa sorte) indo e vindo. Parece um perrengue, e é; mas é um dos encantos da Tailândia!

Este slideshow necessita de JavaScript.

8. Sempre que ver uma placa “informação turística”, saiba que são agências de viagens – e não pontos de informação aos turistas. Ou seja, eles vendem tickets, passeios, hospedagens, etc. Tenha isso em mente e peça a mesma informação em três ou quatro quiosques diferentes, os preços mudam um pouco e a qualidade (conforto do meio de transporte, horários, se te buscam no alojamento ou não, etc) pode mudar bastante. E peça sempre pra ver a foto do seu meio de transporte, pra evitar supresas desagradáveis.

9. Os tailandeses sorriem e acenam um sim com a cabeça pra quase tudo. Pode ser que tenham entendido e estejam te respondendo; pode ser que não tenham entendido bulhufas! Quando você está num restaurante, bar ou coisa do gênero, relaxa e espera seu pedido chegar pra ver o que você vai ter. Mas, quando a informação for importante, tenha paciência pra repetir o que você disse com calma, fale de outra maneira, desenhe e divirta-se aprendendo outras formas de se comunicar. Dependendo do caso, pede informação pra outra pessoa e tenta de novo. Claro que tem gente aqui que fala um bom inglês, aliás, melhor que o meu básico. Esse item é sò pra dar uma dica da média e alertar que um sim pode ser um sim, um talvez ou um não tenho a menor ideia do que você tá falando

10. A comida tailandesa é uma delícia, picante e… com uma overdose de açúcar! Os tailandeses colocam açúcar em absolutamente tudo! De café a Pad Thai (aliás, meu prato preferido!), passando por sucos naturais, chás e saladas. Eles colocam açúcar e depois colocam sal pra neutralizar o açúcar… (é, não dá pra entender!) Então, mesmo que te pareça óbvio, sempre diga “no sugar” mesmo pra coisas que normalmente não levam açúcar, pode ser que eles realmente não coloquem, pode ser que eles coloquem menos. Ou se entrega à temporada de sweet breakfast/lunch/dinner.

Aliás, a lição final é: se entrega! Em poucos dias, já me vi saludando a todos à maneira tailandesa, dividindo mesa de jantar com uma família local sem ninguém falar inglês, conheci gente incrível, gente chata e gente inspiradora, vi tanta beleza e tanta simplicidade – e tanta beleza simples-, que acabei enganchando e cancelando a ida pro Cambodia e Vietnã. Hoje entendo perfeitamente porque tanta gente vem e fica, e tanta gente vem de passagem e estende a temporada até o limite de suas possiblidades. Não posso ficar mais, mas desde os primeiros dias já sabia que ano que vem tô aqui de novo. Com a mochila ainda mais leve e um kit de repelentes de lagartos, mosquitos e formigas muito mais caprichado!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Site hospedado por WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: